Testemunhos

Testemunho Hélder Silva

Chamo-me Hélder Silva, tenho 24 anos, sou da Póvoa de Varzim (...). Sou gago desde que me conheço como gente. Tenho história familiar, a minha mãe também gagueja e nunca se falou muito deste assunto cá em casa. Desde pequeno tenho memórias de colegas a gozarem comigo pela gaguez, tanto nos recreios como em plena aula de leitura. A professora primária sempre me forçou a ler, e sempre que lia ouvia risos, comentários e ficava cada vez mais nervoso e mais nervoso ao ponto de chorar de nervos. Ao longo do tempo, isso passou para a auto-estima, a sentir-me inferior aos outros por este problema.

Passei para ao 5ºano, escola nova, colegas/amigos e professores novos. O problema com a gaguez manteve-se dentro da sala de aula mas cá fora, ia-se dissipando lentamente. Talvez porque conhecesse outras crianças que se calhar não ligavam tanto à diferença. Nesta altura era aluno mediano, tirava 3 e 4 como qualquer aluno, piorava a português e inglês porque se tinha de falar e ler em público. Fora da sala de aula era considerado um pinga-amor, todas as raparigas gostavam de mim, possivelmente porque era mais sensível e fui obrigado a crescer mais rápido que qualquer miúdo daquela idade.

Do 5º ao 9ºano foi um pulo, cresci sempre com o preconceito de falar em público ou à frente de alguém com autoridade porque gaguejava bastante ou nem falava sequer de tão nervoso que estava. No meio destes anos, pratiquei diversos desportos, futebol, natação, andebol, basquetebol e ténis. Sempre fui um rapaz de "socializar" e dava-me bem com toda a gente mas falar em público ou admitir que era gago fazia e faz grande confusão.

Chegou o secundário, onde tinha de apresentar trabalhos aos quais até aqui tinha-me esquivado a praticamente todos. Novamente novas turmas, nova adaptação aos colegas e voltar admitir que sou gago e na aula da apresentação fazia um enorme esforço para dizer o meu nome apenas, tal era a ansiedade, o estar a contar quantos faltam para chegar a mim, o nervosismo que se apoderava do meu corpo. Uma situação caricata foi em crer falar e não conseguir de tão cheio de ar que tava, o meu colega de carteira bate-me nas costas e digo a frase toda em 2 segundos, tão rápido que ninguém percebeu nada do que disse. Toda a gente desata a rir e eu inclusive.

Ao longo deste percurso, raros foram os professores que compreenderam o facto de eu ser gago e sempre que tentavam forçar a alguma coisa eu rejeitava, porque sentia-me humilhado!

Contudo, no meio de tanta coisa, tanto preconceito tanto dos professores como boa parte dos colegas, criei defesas. Não defesas como uma armadura que não deixava penetrar ninguém mas defesas em termos de indiferença, deixei de ligar ao "olha o gago", ao apontar do dedo quando passava na rua, e fui construindo uma vida para além da sala de aula, fui vice-campeão regional e distrital de ténis, tenho medalhas de futebol e basquetebol em diferentes escalões, socializei sempre com os meus verdadeiros amigos, fui desinibindo-me aos longo dos tempos, criei objectivos de vida, lutei por tudo que achava que era certo!

Esta força e determinação fora da gaguez sempre me levou a bom porto, contudo sinto que a tenho porque sempre quiseram deitar abaixo e sempre quiseram pensar que eram melhores que eu por ser não serem gagos e isso deu-me a força para dizer sou tão bom ou melhor que qualquer pessoa que não gagueja.

Cheguei à faculdade, onde tirei análises clínicas e Saúde pública, e mais uma vez, trabalhos sucessivos, novo público! Sempre com a ideia na cabeça que não conseguia falar em público, todos achavam estranho como falava quase fluentemente fora da sala de aula e dentro não dizia uma palavra sem demorar 10segundos para começar. Lembro-me apenas de ter apresentado 2 trabalhos no curso inteiro porque entrava em total pânico quando chegava a minha vez de falar mesmo conhecendo as pessoas e elas a mim, continuava os risos, as bocas, etc. , de tal forma que os suores frios, os tremores e a ansiedade extrema não permitiam que eu dissesse uma única palavra. Várias vezes foi chamado à parte por professores que queriam que apresenta-se e não entendiam o porquê que não conseguia apresentar nada em público. A mais marcante foi um professor chegar ao fim de uma aula de apresentação de um trabalho de grupo e eu não apresentar rigorosamente nada e dizer "Foi o Hélder que fez este trabalho todo e não tenho dúvidas nenhumas disso. O Hélder sabia este trabalho na ponta da língua, dizia-o sem olhar sequer para apresentação. Porque que não apresentou?". Nesse dia senti-me revoltado comigo mesmo! Porque todo o que ele disse era verdade e senti-me frustrado, angustiado e pior que isso burro por não aceitar esta diferença e ligar ao que os outros pensam!

Mais tarde viria os estágios, análises clínicas têm de se lidar com pessoas e conversar com elas e eu adoro isso! O problema seria como as pessoas reagiriam à minha gaguez. O coordenador de curso fez questão de avisar todos os locais de estágio que eu era gago. A partir daí, assumi que todos já saberiam da minha situação, nos 1ºs dias de estágio gaguejei, gaguejei muito mesmo! Mas sabia as coisas todas relacionadas com a área de estágio e nas colheitas queria ser simpático e queria ser igual a qualquer um. Acabei os estágios deixando amigos em todos os locais por onde passei e terminei com média de 17 os 4 estágios, 2 deles com média de 19.

Posteriormente veio a tese, estudei um mês para fazer uma apresentação de 10min e os nervos, a ansiedade, a vontade de querer fazer bem e sem gaguejar era tão grande que não consegui dizer o título na defesa final. Considerei até hoje o maior falhanço da minha vida. Não por ser gago, mas por querer tanto fazer bem, querer mostrar que sabia e tirar grande nota não consegui falar nada. Irritou-me muito e nesse dia queria desaparecer! Contudo deram-me a nota de uma apresentação treino que realizei para as orientadoras, nota final de 17. Mas sabia que podia ter tirado 19!

Apesar de todos os contratempos acabei o curso com média de 16 com muito orgulho e considerado dos um dos mais promissores pupilos a sair naquele ano.

A minha tese foi apresentada sob a forma de poster num congresso internacional e nacional. No congresso nacional fui eleito um dos 5 melhores trabalhos de Análises Clínicas a nível nacional contudo tinha de apresentar o trabalho para uma plateia e recusei porque não conseguiria enfrentar o público e iria gaguejar como tudo. Arrependo-me muito hoje porque seria uma mais-valia no meu CV.

Durante a procura de trabalho vi ofertas recusadas por ser gago e ouvi literalmente "Você é gago??!! vá se tratar pah!!!".

Até que finalmente encontrei trabalho, fui bolseiro de investigação onde tive de realizar colheitas ao domicílio, onde tive de fazer inquéritos às pessoas, onde fui obrigado a falar ao telefone... Como todos nós sabemos algo muito complicado para quem é gago! Procurei ajuda, aconselharam-me principalmente exercícios respiratórios e que praticasse todos os dias. Assim o fiz, melhorei a fluência quando estava calmo mas ao mínimo stress ou complicação ia-se tudo ao ar! Fiz das tripas coração, enfrentei pessoas que não conhecia, vi as piores caras a olhar para mim, ouvi comentários "de você é mesmo gago", pessoas riram-se literalmente na minha cara, liguei a pessoas a gaguejar bastante mas CONSEGUI!! Fiz tudo o que pude, consideraram-me estranho inicialmente mas um óptimo profissional depois de me conhecer, gaguejei muito, pensei e angustiei muita vez antes de ligar a alguém mas no fundo acho que todos somos assim!

Recentemente também me inscrevi em mestrado, mais uma vez tive de apresentar trabalhos! Pela 1ª vez na vida, gaguejei como tudo, (…) mas conclui sozinho uma apresentação feita por mim em mestrado! Foi o dia mais glorioso e mais fantástico da minha vida! Consegui ultrapassar o meu medo, para um público pequeno e em silêncio consegui expressar-me! Se me perguntarem continuo a ter medo? Sim continuo! Se pretendo desistir? Não, não pretendo!

Actualmente estou com média de 17 de mestrado, e vêm aí a dissertação final e mais um júri que vou ter de enfrentar! Estou a tremer, estou a balançar com medo de repetir o que fiz na tese de licenciatura e não conseguir dizer nada! Mas deixo aqui uma mensagem de luta e insistência de quando somos bons não devemos parar de lutar!

Temos objectivos de vida, sermos boas pessoas, sociáveis, sermos bons naquilo que fazemos só depende de nós (gagos ou não) tanto na vida profissional como pessoal!

Sou sincero que muitas vezes a gaguez faz-me faltar a confiança, faz pensar que posso não ser capaz quando no fundo sei que sim, mas persistir e lutar a cada dia e conquistar as pequenas grandes vitórias é importante! Falar ao telefone, falar em público, admitir que somos gagos é difícil e custa, mas temos de lutar e tentar ultrapassar as barreiras. O filme discurso do Rei é um óptimo exemplo disso e muitas vezes emociono ao vê-lo.

Quando se quer tudo é possível!

Atenciosamente,

Hélder Silva