Sou a Luísa, tenho 24 anos, vivo no Porto, sou Farmacêutica e gaga desde que me lembro da minha existência. A minha Mãe conta-me que comecei a falar aos 2 anos (acho que é o normal) e que só se deu conta que eu era gaga quando eu tinha 3 anos. Aos 5 anos fui para uma terapeuta da fala e só saí de lá aos 9. Não sei muito bem porque saí, nem me lembro do que fazia lá. Mas também eu não me lembro de muitas coisas da minha infância e acho que isso se deve ao facto gaguejar. Isso afectava-me muito eu não me relacionava muito com as pessoas. Tinha medo de falar, era gozada na escola, uma timidez absurda, enfim… o normal para um gago.
Aos 13 anos comecei a ficar mais “espevitada”. Continuava muito gaga, mas já tinha consciência de mim enquanto pessoa e sabia que era um pouco mais do que a gaguez. No Secundário mudei de Escola e consegui fazer amigos muito facilmente (o que para mim até foi estranho).
Chegou a decisão de escolher a profissão e, apesar de a gaguez ter tido um aspecto preponderante, escolhi o curso sem outras alternativas. Eu acho que estava numa de “vamos indo e vamos vendo” sem pensar muito no que uma farmacêutica tinha de falar. Na Faculdade chegou um grande problema: fazer trabalhos e apresentá-los oralmente aos colegas. Para mim era um bicho de 7 cabeças e parecia que ia para a guilhotina. Lá me decidi a ir procurar ajuda para conseguir apresentar os tais trabalhos sem o stress associado. Falei com a minha antiga terapeuta e ela como já não “tratava” de gagos encaminhou-me para [um novo] terapeuta […]. Eu pensei que ia ter aulas de respiração ou de dicção, ou de sei lá. Mas não foi nada disso. Ele ajudou-me a desconstruir o problema da gaguez e a encará-la como uma parte de mim que eu não posso apagar, mas sim tentar controlar expondo-a sempre.
Como todos sabem isso não é nada fácil. É um processo que todos os dias tem de ser experimentado e testado. E às vezes não resulta. E ficamos frustrados e temos de renascer das cinzas como uma Fénix.
Passada a Faculdade veio o problema do estágio. No meu curso é obrigatório fazer um estágio numa Farmácia Comunitária – as farmácias de rua – o que para mim, apesar de já ter ferramentas para me controlar e gaguejar menos, era muito complicado. Imaginar-me a atender clientes todo o dia entrando um e depois outro sempre a falar com pessoas diferentes. Ui… Nem queiram imaginar. Mas lá consegui…
Mais uma prova superada! Tanto consegui que tive a sorte de ficar a trabalhar nessa farmácia. Grande parte dos clientes desta Farmácia é regular e sabe perfeitamente que eu sou gaga. Há quem não goste de ser atendido por mim, há quem goste, há quem fale comigo sobre o assunto, há quem não fale. Enfim… Há de tudo como na Farmácia.
Um problema com que me continuo a debater é o telefone. (Mas até já ando numa fase melhor.) Detesto falar ao telefone da Farmácia. Estava sempre a fugir ao telefone, mas apercebi-me que eu de facto não posso fugir, senão não consigo mesmo usá-lo. Agora já consigo utilizá-lo para falar com clientes e com fornecedores… Falta-me a fase dos médicos e dos delegados. Eu acredito que um dia consiga falar com toda a gente ao telefone, mas tem de ser com algum tempo…
Só falta falar de ser gaga mulher, pois a meu ver é muito diferente de ser gago homem uma vez que a nós mulheres nos é pedido que sejamos perfeitas: cabelo, cara, unhas, corpo, e claro que gaguejar é uma falha muito grande para a sociedade.
Espero que consigam ter chegado até ao fim do meu “testemunho”.
Luísa
P.S. Agora que estou a reler tudo parece que às vezes me contradigo, mas a gaguez é mesmo assim: uma contradição permanente!