O meu nome é José Carlos (José Carlos ou Carlos é mesmo o que prefiro, apesar de a maioria das vezes ser tratado por amigos e colegas por Zé). Interessante, não sei até que ponto o facto de não insistir para que me tratem pelo nome que mais gosto derivará da minha gaguez... E esta dúvida não me parece sequer trazer em si daquelas verdades escondidas, é mesmo uma pura e inocente dúvida. É bom ter estas dúvidas, afinal com certeza que deve haver pessoas não-gagas que passam pelo mesmo e não insistem, não? Ter as mesmas dúvidas acerca da nossa capacidade comunicativa que um não-gago é um grande passo, não acham?), tenho 27 anos e não tenho a certeza se gaguejo desde que me lembro.
Uma história que agora já parece envolta em confusão e incerteza faz-me lembrar que comecei a gaguejar por causa da canção "atirei o pau ao gato..." (ou das várias coisas que eram ditas na minha infância, eu agarrei em algumas e inventei algumas memórias, não descarto essa possibilidade, a mente humana é mesmo incrível).
Tenho uma gaguez com alguns tiques associados, por vezes fecho os olhos, ponho a língua de fora, coisas dessas. Mas também tenho alturas em que quase não gaguejo. Em que se contam pelos dedos de duas mãos as vezes por dia em que tenho alguma dificuldade, e apenas leve. A ler é relativamente provável que tenha poucas dificuldades. Mas claro, tudo isto depende muito dos dias. Não é do tempo, não é da lua, é apenas da aleatoriedade, do caos, do que quer que seja. É e pronto. E eu falo e pronto. Se tenho coisas a dizer, gaguejo. Mas digo-as. Curiosamente, não sei se posso dizer que a tensão piora a minha gaguez. Se há alturas em que de facto piora, há também outras em que até ajuda a ser fluente, em que o entusiasmo diminui a gaguez. Talvez metade-metade...
Relativamente ao telefone, tenho alguma ansiedade, mas sei que se falar pausadamente a coisa deve correr mais ou menos bem. Além disso acho que o não estar cara-a-cara com a pessoa ajuda a tirar alguma pressão. E se gaguejar, se não me fizer entender, torno a recomeçar. E de novo outra vez, se for preciso.
Entrei em contacto com a Associação Portuguesa de Gagos quando fazia terapia da fala. Desde então tenho participado nas Jornadas sobre a Gaguez, nos almoços e jantares-convívios... Tem sido uma experiência incrível. Tenho convivido com pessoas que hoje considero verdadeiros exemplos na maneira como lidar com a gaguez. Que raios, exactamente porque é que eu não posso conseguir também?
A gaguez limita alguns aspectos da nossa vida, não o neguemos. Algumas pessoas que não gaguejam verbalmente são muito mais "gagas interiores" que alguns gagos no verdadeiro sentido do termo, certo. Mas todos sabemos que se não fossemos gagos, teríamos tido uma vida diferente, ou melhor, seriamos pessoas diferentes, e a níveis que só podemos imaginar de longe. A níveis que só em certos, curtos, momentos vislumbramos.
Mas a gaguez também nos transforma em pessoas peculiares. Muitas vezes se fala da necessidade de dar mais de nós próprios para "colmatar" a gaguez. É uma das questões pertinentes ao nível profissional mas também, e mais importante, parece-me, ao nível pessoal, não concordam? Quantos de nós não damos mais de nós do que os não-gagos? Quantos de nós, a nível pessoal, não damos mais de nós próprios?
Sou estudante, e tenho alguns episódios relativos à gaguez que ilustram a "luta connosco próprios" que caracteriza os gagos. Curiosamente, não posso dizer que tenha sofrido muito (quase nada mesmo) com a descriminação dos meus colegas - mesmo em criança, e as crianças podem ser terríveis, todos sabemos. A discriminação (muitas vezes escondida, ou distorcida, não de forma directa, claro) vem dos adultos... É mesmo verdade. É mais uma coisa em que a gaguez escapa à regra...
Uma vez, há cerca de 14 anos e numa aula, em que me estava a portar menos bem do que o normal (era um modelo de aluno!), a professora chamou a atenção dizendo algo do género "o senhor gago, faça o favor [...]". Pode ser brutal, ainda mais vindo de quem deveria ter uma sensibilidade especial para o assunto (e este caso serve para exemplificar o trabalho que poderá haver a fazer neste campo; não se deverá contar que o problema seja apenas a "falta de informação", mas talvez falta de formação mesmo - isto é assunto a aprofundar)... Mas muito decididamente apontei o dedo à professora e disse "stôra, eu não lhe aceito isso". A senhora desfez-se em desculpas.
Na universidade, especialmente nas disciplinas da especialização, em que há maior grau de interacção professor-aluno, fui talvez dos alunos mais participativos. Alturas em que tinha algo a dizer, alguma dúvida, alguma resposta que mais ninguém sabia, não me calei.
Como se diz " Deus dá o fardo, mas também dá a força." - não quer dizer que eu seja um especial crente, mas fica a ideia. E quantos de nós por vezes não nos admiramos com a relativa "fragilidade" de pessoas à nossa volta, que se deixam abater por coisas que a nós não parecem deixar grande mossa? Cada um tem a sua cruz, mas mesmo assim eu pergunto: será que a gaguez também não nos fez mais fortes? Todos temos os nossos períodos menos bons, e há alturas em que sentimos mesmo que a gaguez é a maior das dificuldades e que não há mesmo possibilidade de felicidade; mas depois, sei lá, parece que há outros momentos em que nos sentimos tão fortes... Eu pelo menos penso, será que a gaguez não contribuiu para isso, para eu ser forte? É uma das coisas que a vivência da APG me tem permitido, e acho que é algo de muito valioso e que confere um certo empowerment, é uma das maneiras de ver a gaguez que acho mais positivas, encarar a gaguez não só como uma oportunidade para daqui para a frente alcançar muito mais, devido à superação dos obstáculos e à continua melhoria pessoal, a humildade para a qual penso que os gagos estão especialmente sensíveis, mas também como algo que já, ao longo da minha vida, "contribuiu" para coisas em mim de que eu me orgulho...
A todos, cumprimentos.
José Carlos